Friday, August 12, 2011

Resenha – A Sangue Frio


Em A Sangue Frio (In Cool Blood), Truman Capote, cansado do subjetivismo que dominava a literatura norte-americana, conciliou romance com discurso jornalístico, abordando de forma investigativa e literária o assassinato brutal de uma familia no interior do Kansas, nos Estados Unidos. Narrando o ambiente, os costumes e os últimos dias dos Clutter, uma típica família ao tradicional estilo americano, o autor mostra com todos os detalhes o assassinato que chocou a comunidade de Holcomb.
Capote encontrou a pedra bruta para seu trabalho em uma pequena nota de jornal sobre um crime não esclarecido. A partir de então, passou seis anos e meio ocupado em entrevistar parentes, amigos, conhecidos e quem quer que já tivesse tido qualquer contato com as vítimas e, após encontrados os criminosos, conhecer todos os passos dados desde o planejamento até a concretização do assassinato.
Apesar do enorme número de informações, o texto foge à rigidez do jornalismo, sem, contudo, perder a objetividade e clareza exigida. Com habilidade, o autor usa os pontos de tensão da trama para levar o leitor sempre para as páginas seguintes, deixando o texto fluído e cativante.
Elegante, profunda, questionadora e sarcástica, a obra possui detalhes e estilo irreparáveis. O autor esmiúça de forma primorosa diversos aspectos das vidas das vítimas e criminosos, a tal ponto que Perry e Dick, condenados à morte pelo assassinato da família, chegam a ser tomados pelo leitor como alvos tão indefesos da sociedade quanto os Clutter foram deles.
Capote inicia a obra descrevendo a pacata terra natal e a vida dos Clutter, onde nada inesperado acontecia e não havia porque vigiar qualquer coisa. Até a madrugadaem que Dicke Perry entraram na residência das vítimas, interpondo o som de seus disparos ao silêncio que normalmente reinava em Holcomb. “Nas primeiras horas daquela madrugada de novembro, porém, sons nada costumeiros sobrepuseram-se aos ruídos noturnos normais de Holcomb – a histeria aguda dos coiotes, o arrastar seco das folhas sopradas pelo vento, o lamento distante dos apitos de locomotiva. Na ocasião, não foram ouvidos por ninguém na Holcomb adormecida – quatro disparos de espingarda que, no fim das contas, deram cabo de um total de seis vidas humanas.”, narra o autor.
Este trecho vai ao encontro da construção das mentes criminosas de Perry e Dick elaborada pelo autor ao longo da obra. Através dos problemas sociais enfrentados por Dick e seu comparsa que, abandonado e maltratado pela família e pela vida, nunca teve chances de desenvolver algo que lhe desse condições de viver de forma razoável.
Além do poder de persuasão, Capote era dono de uma excelente memória, construída ao longo de anos lendo e reescrevendo trechos de livros, revistas e jornais, qualidade que tornou dispensável o uso do gravador. Graças a isso, muitas de suas conversas, aparentemente despretensiosas com os entrevistados lhe renderam depoimentos importantíssimos para traçar a personalidade de seus personagens e recriar situações.
Capote soube perceber a literatura existente por trás do mundo real retratado pelo jornalismo. Ele não apenas se inspirou na notícia, mas foi a fundo nela e investigou dados em mais de oito mil páginas. Conheceu tão bem o caso que conseguiu preservar os fatos e a alma dos seus entrevistados, costurando-os na história e gerando tensão narrativa através de passagens informativas, descritivas e analíticas.
Dizem que o autor estava presente nas execuções dos assassinos e que chorou. Sabe-se que depois deste livro ele não produziu nada de grande relevâncìa e entregou-se de vez ao álcool. Talvez depois de vivenciar tudo isso tão intensamente tenha lhe faltado sangue frio suficiente para continuar vivendo.

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